"SEI QUE NADA SEI, NO ENTANTO SEI, QUE ENQUANTO VIVER COMBATEREI COM TUDO O
QUE ESTIVER AO MEU ALCANCE, TODOS OS QUE COMETEM ALIENAÇÃO PARENTAL"

sábado, 21 de novembro de 2009

Laurinda, linda, linda...

Era de noite quando eu bati à tua porta,
e, na escuridão da tua casa,
tu vieste abrir,
e não me conheceste.
Era de noite - foram mil e uma,
as noites em que bati à tua porta,
e tu vieste abrir,
e não me reconheceste,
porque eu jamais bati à tua porta.
Contudo, quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir,
os teus olhos,
de repente,
viram-me pela primeira vez -
como sempre de cada vez é a primeira,
a derradeira instância do momento
de eu surgir e tu veres-me.
Era de noite,
quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir e viste-me,
como um náufrago
sussurrando qualquer coisa que ninguém compreendeu.
Mas era de noite,
e por isso tu soubeste que era eu,
e vieste abrir-te,
na escuridão da tua casa.
Ah!...Era de noite,
e, de súbito, tudo era apenas lábios,
pálpebras, intumescências,
cobrindo o corpo de flutuantes volteios,
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos,
por dentro beijava os teus olhos pensados,
beijava-te pensando,
e estendia a mão sobre o meu pensamento.
Corria para ti,
minha praia jamais alcançada,
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e umas as noites
em que não bati à tua porta
e vieste abrir.
Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades" (Adaptado)

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