"SEI QUE NADA SEI, NO ENTANTO SEI, QUE ENQUANTO VIVER COMBATEREI COM TUDO O
QUE ESTIVER AO MEU ALCANCE, TODOS OS QUE COMETEM ALIENAÇÃO PARENTAL"

sábado, 16 de junho de 2012

A Casa das Cordas




Recordo-me de naquela casa., de um cordoeiro. As divisões todas chegadas à esquerda mantendo um corredor lateral sobre a direita onde o artesão estendia o sisal colorido para fazer cordas e cordões. Cabeçadas para os cavalos, cintas para burros e pequenas brincadeiras com que entretinha os mais pequenos como eu que se sentiam atraídos pela roda de madeira que era necessário impulsionar para torcer todos aqueles cordéis. A parte mais aborrecida eram as velhas cordas dos navios que eram desmanchadas até ao mais ínfimo cordel e depois cobertas com sisal novo para elaborar novos tirantes. As poucas divisões da casa eram simples ripas de pinheiro bravo que serviam de suporte aos grandes papelões que compunham as paredes. Ali nasceram e cresceram várias gerações de gente.
Lembro-me da São, cabelos negros compridos, cara redonda e olhos desconfiados. Pele muito branca, era raro sair à rua, a mãe (figura muito carregada) mantinha-a como que prisioneira. Adversária em força da "Cabeça de Andorinha", alcunha da tua mãe devido ao facto de que, quando se colocava à janela do primeiro andar na casa da Travessa da Fonte do Bom Nome, deixava aparecer só a sua cabeça de cabelo farto e comprido de um castanho muito escuro e brilhante. Estou a vê-la, sorriso rasgado e sempre com o ombro encostado à soleira do lado esquerdo da janela.
Lembro-me da Linda, também morou na casa das cordas, do Raul.
Lembro-me dos santos populares no largo Mayer. Fogueiras enormes cujas labaredas quase queimavam os fios da electricidade. Do Agostinho, o controlador Mor que não controlava nada, do Luciano, do Mánuta. Da Geta, na altura figura de mistério. Da 'Requeta' das tripas e da maluca da macaca que sofria a bem sofrer as leviandades dos Fernandos. Das partidas do Vitorino aviador e do poço onde supostamente estaria uma cobra de quase vinte metros a viver.
Nas noites frias de inverno aquecíamos as mãos e a alma no lume onde a Requeta preparava os célebres molhinhos e sistematicamente assaltávamos os sacos onde estava o milho para as galinhas e fazíamos pipocas no cimento aquecido pelas brasas.
A televisão não era muito atractiva, a preto e branco e tirando o Bonanza, o Homem Invisível e as Viagens ao Fundo do Mar, pouco mais havia para dois ou três índios que queriam mais da vida.
Verdadeiras batalhas campais com machados feitos de uns losangos de chapa da 'fábrica' dos bolos, arcos de flechas estilo Robin dos Bosques fabricados com varetas dos guarda-chuvas e uma panóplia de 'armas' muito 'sofisticadas' como mocas, vara-paus, fisgas e fundas que nunca funcionavam correctamente. Houve necessidade de constituir um grupo coeso e organizado para fazer frente ao 'tirano' do pátio Baptista, o Agostinho. Figura carismática que tinha uma dificuldade enorme em recrutar elementos para o seu grupo, de vez em quando o Dinis (Pato Marreco), alinhava com ele mas a meio das lutas passava para o nosso lado ou fugia, porque a mãe aparecia de chinelo na mão a gritar para o Dinis ir ao Ti Bernardino comprar farinha para fritar as petingas ao pai. Ah! Já me esquecia, o nosso grupo era "Os Bagatelas" e tínhamos uma sede ou fortificação repleta de artilharia não fosse o Agostinho aparecer. Estava construída nas traseiras da casa das cordas. Além de verdadeiros guerreiros éramos uns românticos, escutava-mos muito o Sargento Teixeira da Rádio Ribatejo que tinha um programa muito 'seboso' onde tentava engatar as 'sopeiras' do Eng. Cordeiro e dizia constantemente "aí estão elas, Tac-Tac Bagatelas", não sei o significado mas deve ser  semelhante ao "ripa na rapaqueca" do falecido Jorge Perestrelo. Memórias de uma infância livre, linda, genuína, pura, como tantas outras. És um dos resultados dessa infância.

Longe de imaginar que tinha de recorrer ao meu amigo de sempre, o Fernando Vitorino, para retornar à casa das cordas, agora como seu 'inquilino'. Após a fragmentação da minha vida, espalhada que ficou por tantos desencontros e desilusões, eis-me regressado aos quadros da minha infância.
Logo na entrada na parede do lado direito esta tua foto, na mesa onde me comuniquei com o mundo entre pausas e intervalos lá estavas tu, 'objecto' do meu pensar. Na estante nas minhas costas, o teu irmão, tu e algumas recordações. Na divisão do meio o quarto, por sobre a cabeceira uma foto do teu irmão abraçado ao meu neto. Mais ao fundo caixas esperando por outro tempo contendo fragmentos do que foi supostamente uma vida. A puta da minha vida. Ao contrário do que julgaste, tu e o teu filho foram fragmentos que me fizeram sentir menos só na casa das cordas. E foi necessário chegar à terra de Don Goyo* para cobarde-mente alguém me atacar da maneira mais baixa e vil que um ser humano é capaz. Dos vários ataques de que fui alvo com mais ou menos perseverança eu me defenderei mas um houve que me fez sentir um verdadeiro palhaço, o teu. Claro que isso não irá alterar o teu caminhar até porque nem todos tem alma para palhaçadas, como eu, mas não há rancor em meu peito, apenas dor tal como tive oportunidade de te recordar e se volto ao assunto nada de anormal me assiste apenas o facto de te dizer, sem amarguras, sem condicionamentos, PARABÉNS PELO TEU ANIVERSÁRIO.
 Que tenhas tudo na vida para atingires os teus objectivos e que o Universo te proteja.
MUITAS FELICIDADES.

*Don Goyo - Nome dado ao Vulcão Popocatépetl situado no Estado de México.


                  

Al mundo le sonrreimos,pero solo dios sabe la creel melancolia de la tristeza q nos envade muy en el fondo de los sentimientos.tras la sonrrisa escondemos el dolor q por dentro llevamos.La hipocresía asienta carcajadas de bufones, alimenta sedientas miradas de rencores, absurda felicidad de quien esconde palabras malditas sobresalientes de traiciones.

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