"SEI QUE NADA SEI, NO ENTANTO SEI, QUE ENQUANTO VIVER COMBATEREI COM TUDO O
QUE ESTIVER AO MEU ALCANCE, TODOS OS QUE COMETEM ALIENAÇÃO PARENTAL"

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Minha cabeça estremece


Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...

Foi assim que iniciei um artigo qualquer, a memória é curta e apenas retenho o essencial.
A primeira vez  que tive um embate com a poesia e a prosa de Herberto Hélder foi através de um Grande
Amigo, Fernando Alves, numas águas furtadas algures em Santarém aos microfones (coisa bonita) de uma
Rádio Livre, já lá vão um horror de anos.
Há um aperto no peito quando recordo estas coisas, mas adiante.
Sempre que a vida me confrontou com uma certa realidade, utilizei essa aprendizagem no meu quotidiano.
Numa dessa ocasiões  peguei no Passos em Volta de Herberto Hélder e atirei:

"Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?
Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida".

Ui! O que fiz eu, quase espumando aos cantos da boca e com o olhar flamejando 'disparando' sem contemplação em todas as direcções, questionou-me.

-O que sabes tu? Vá diz-me, diz-me lá quais são essas histórias terríveis que tu sabes!!!
-Mas ó mulher estou apenas citando um poema de Herberto Hélder ( e apressadamente retiro o livro da estante, abro), está aqui, repara.
- Após uns segundos de um angustiante silêncio (tempo para ela conferir a obra), voltam de novo os disparos.
-Tu sabes muito, estás convencido que me iludes.
-?????????

Desnecessário será dizer que foi ela que me contou histórias terríveis e meu mundo desabou mais um pouco com aquela sensação estranha de que o filme se repetia tal como Milan Kundera o entendeu na 'Insustentável Leveza do Ser'.

Ainda agora, quando me vem à memória essa noite, minha cabeça estremece.



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